O que é Rito Escocês Retificado?


O que é Rito Escocês Retificado?

O Rito Escocês Retificado, também conhecido como Regime (RER), é uma ramificação da Maçonaria fundada em 1782, sob a capitania do francês Jean-Baptiste Willermoz, que combinou a essência cristã, o legado simbólico Templário e os princípios cavalheierescos (escocismo), visando trazer para a maçonaria a antiga essência cristã (Retificação) e, por um particular sistema esotérico, promover a restauração de todas as potencialidades humanas perdidas com a queda de Adão para então, reintegra-lo à Deus.


RER

“RER” pode significar tanto “Rito Escocês Retificado” como “Regime Escocês Retificado".

Como saber aplicar?

Sinteticamente, “Rito” se refere ao sistema maçônico simbólico, dividido em três graus, autônomo, absorvido ou praticado por uma Potência maçônica que também  tem a prerrogativa de gestão. Exemplificativamente, o Grande Oriente do Brasil - GOB, é uma Potência e possui dentre um de seus ritos autorizados, o Rito Escocês Retificado. Por sua vez, “Regime”, está ligado a um entendimento de gestão ou administração, própria, em uma organização cujo comando é exclusiva para um ramo maçônico e a gere por completo, em todos os seus graus.

Observe-se que nesta ramificação, a entidade ritualística e administrativa máxima é chamada de "Priorado". No caso do "Rito", o Priorado irá administrar a partir do grau quatro. Para ser regular, ou seja, de acordo com a tradição inglesa (Andersonina), o Priorado terá de possuir um tratado de amizade com a Potência Regular do país em que se situa. No caso do "Regime", observa-se até o momento a inexistência dessa prática, o que torna essas instituições "não reconhecidas". Isto não desmerece ou inválida os trabalhos maçônicos por eles praticados. Todavia, a tradição inglesa não permite visitação e quaisquer trabalhos desempenhados oficialmente em Loja com as instituições que não seguem à risca seus princípios e requisitos.

Princípios

Os princípios são crenças ou valores fundamentais que orientam a ação e o pensamento de uma organização. Eles são as diretrizes que orientam a conduta e as decisões. É comum e esperado que, mesmo de forma sutil, seja percebido um conjunto de diretrizes essencialmente atrás de toda a estrutura doutrinária e ritualística.

Os elementos ou ideias que antecedem a estrutura do Regime Escocês Retificado são: 

Amor (relacionado com sentimento profundo, complexo e divino)

Tolerância (relacionada com o respeito e ao convívio pacífico)

Caridade (relacionada com a ação direta e ocasional ou pontual de ajudar pessoas em necessidade)

Beneficência (relacionada com a ação mais ampla de agir em benefício dos outros de forma consistente ao longo do tempo, envolvendo questões além da ajuda imediata e buscam soluções sustentáveis para questões sociais e humanitárias)


Fundamentos

Os fundamentos são as bases, as estruturas ou os conceitos fundamentais de uma ideia, teoria ou sistema. Eles são as premissas ou alicerces que sustentam uma construção. Por exemplo, os fundamentos da matemática incluem a aritmética, a álgebra e a geometria. No caso do Regime Escocês retificado encontraremos como extensão dos princípios da Caridade, Beneficência, Amor e Tolerância a “Religião Cristã” que, notadamente, possui os seguinte pontos dogmáticos: 

A fé no Cristo (o exemplo de homem a ser seguido)

A fé na Trindade (que encontra a definição divina em três pessoas: o Pai (Deus), o Filho (Cristo), e o Espírito Santo - o consolador, testemunha do Cristo e mensageiro de amor e paz). Observa-se, que esta compreensão da trindade é a mais raza dentro do sistema do RER. Em um estágio mais avançado será necessário admitir esotéricamente uma quarta parte. Por trás dessas três, que seriam em verdade manifestações,  existiria o "Deus uno" e indivisível.

A fé na imortalidade da alma (atributo divino concedido ao homem)


Pilares

De maneira geral em um sistema organizacional, administrativo, o conceito de "pilar" refere-se a um elemento fundamental que sustenta o sistema. Os pilares são geralmente componentes essenciais do sistema que são necessários para o seu funcionamento. Os pilares podem ser definidos como os elementos que sustentam a organização e permitem que ela alcance seus objetivos. Os pilares podem ser de natureza organizacional, como a estrutura, os processos e a cultura organizacional. Também podem ser de natureza técnica, como os sistemas de informação e os recursos humanos. Os pilares são essenciais para o sucesso de uma organização. Eles fornecem a sustentação para o desenvolvimento e a implementação de estratégias, políticas e programas. Também ajudam a garantir que a organização seja eficiente e eficaz.

Na maçonaria esse conceito pode ser ligado a elementos e características que mantém a coesão do ritual e permitem a sustentação de toda a doutrina em sua dimensão maçônica. A frente, estudando o funcionamento o estudante irá sempre encontrar uma rígida liga comum que se estende ao longo de toda esta ramificação maçônica e a mantém ereta por todos os Graus e Ordens que a compõem. São elas:

Retificação

Escocismo

Religião Cristã


Retificação

A palavra "retificação" tem sua origem no latim "rectus", que significa "reto". No sentido literal, retificação significa tornar algo reto, corrigir uma imperfeição ou erro. No sentido figurado, retificação pode significar corrigir um comportamento, um pensamento ou uma crença.

O conceito de retificação é importante no contexto cristão, pois está relacionado ao processo de purificação e transformação do indivíduo. É o processo de abandonar o pecado e o mal, a fim de seguir os ensinamentos de Cristo, ou seja, se alinhar com a vontade de Deus. Seu início ocorre com o arrependimento, o reconhecimento do pecado e o desejo de se afastar dele. Uma vez que o fiel se arrepende, pode começar o processo de transformação pelo qual abandona o pecado, a materialidade, o mal e passa a viver uma vida de amor e serviço ao próximo, seguindo os ensinamentos de Cristo. 

Esta sequência, que inicia com a fé das palavras do Evangelho e acaba pela repetição da vida levada por Jesus de Nazaré, é a própria salvação que ele pregou. A salvação é um dos conceitos mais importantes do cristianismo e tem a ver com a libertação do homem do pecado e da morte, e reconciliação com Deus. 

Romanos 5:8: "Mas Deus demonstra seu amor por nós ao enviar seu Filho Unigênito ao mundo para morrer por nós pecadores." 

João 3:16: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." 

Efésios 2:8-9: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie."

A salvação é um dom de Deus oferecido a todos, mas também é uma responsabilidade do cristão. O cristão deve viver uma vida de fé e obediência a Deus seguindo os passos de Cristo, a fim de crescer na salvação e ter uma vida eterna com Ele.

Este poderoso e complexo processo foi discutido em um clássico da espiritualidade cristã que pode balizar com destreza a ideia de retificação. Tomás de Kempis (1380 - 1471), um monge holandes, agostiniano, que viveu na Alemanha, no mosteiro de Mount Saint Agnes, escreveu o livro intitulado “A Imitação de Cristo”, cujo conteúdo enfatiza a importância do arrependimento e da transformação na vida cristã é um dos livros mais influentes da espiritualidade cristã. 

Este trabalho é conhecido por sua simplicidade e clareza, e por sua abordagem prática da vida cristã. Em suas profundas reflexões enfatiza a importância da humildade, da obediência e do amor. Ensina que o cristão deve se esforçar para seguir os ensinamentos de Cristo e viver uma vida de santidade.

No contexto esotérico, a retificação é um processo de purificação e alinhamento espiritual muito semelhante ao cristianismo religioso. Pois, é um processo pelo qual se pretende remover as impurezas e distorções da consciência, a fim de alcançar um estado de clareza e harmonia e aproximação com Deus.

Na maçonaria esta ideia veio a surgir no século XVIII, tendo sido inicialmente capitaneada por Martinez de Pasqually que tinha a intenção de “retificar”, trazer para dentro da maçonaria uma essência cristã até então diluída, esquecida e abandonada pela ordem e pelos maçons. Portanto, a retificação tem a ver com o resgate doutrinário cristão dentro da maçonaria e dentro do coração e da moral de seus iniciados.

Posteriormente ao seu falecimento, e o término de sua Ordem (Ellus Chöen), Jean-Baptiste Willermoz, seu discípulo, aproveitou grande parte desta doutrina ao fundar o Regime Escocês Retificado.


Escocismo

Na maçonaria, ao que tudo indica, o termo “escocismo” surge como forma de provocação dos franceses aos ingleses Os Stuarts, Família real inglesa, destronada, que fugiu e se exilou na França, encontrou muitos apoiadores. Esta simpatia, propiciou um cenário fértil para as ambições políticas de restauração dos Stuarts ao trono, ao passo que suas tradições maçônicas ligadas a lendas templárias cavalheirescas inundaram as mentes dos franceses que logo as incorporaram, sobretudo nos graus e ordens superiores da maçonaria. Como exemplo, temos a Estrita Observância Templária que viria a ser absorvida pelo Regime Escocês Retificado em 1782.

Uma curiosidade, era o fato de que para aqueles que considerassem Charlie o legítimo Rei, também o teria por via reflexa como o legítimo como Gão-Mestre e único investido no poder para a concessão de cartas patentes, isto é, abertura de novas Lojas maçônicas.

Outro fato que chama a atenção, é o de que muito embora possam existir outros ritos que têm como preceito ou mesmo a nomenclatura escocês, sua estrutura e doutrina pouco ou nada estão relacionadas. É o que pode ocorrer no caso do Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA, estabelecido em 1801, pelo Supremo Conselho do REAA nos EUA. Eles não devem ser confundidos nem imaginados como sendo opostos ou, que os escoceses retificados, são assim chamados, por tentarem reformar ou mudar os escoceses antigos e aceitos. Até mesmo, pelo fato de os retificados terem surgido antes.

Portanto, “Rito Escocês” é apenas a designação que indica a herança simbólica e alegórica da história do Templo de Salomão e o reavivamento dos princípios cavalheirescos Templários disseminados na França pelos Starts em seu exílio.


Religião Cristã

Com uma presença constante na ritualística a denominação “religião cristã” também pode ser interpretada em um primeiro momento como uma forma ampla e geral para se referir ao conjunto de crenças e práticas que se desenvolveram a partir da mensagem de Jesus Cristo e de seus seguidores.

Embora uma pesquisa bíblica possa revelar a existência de uma variedade de correntes cristãs, em seu início, de forma geral, todas possuíam a mesma fé em Cristo e, nominalmente são encontradas ou denominadas (erroneamente ou não), como sendo a "Religião Cristã".

O detalhe é que toda a influência esotérica cristã do RER é originada em Martines de Pasqually, cujo discípulo foi Willermoz, o fundador do Regime Escocês Retificado. Esta co-participação indireta é especial e, notadamente, exerce uma grande influência. Sem adentrar em aspectos doutrinários mais profundos, Pasqually desejava uma maçonaria afinada com uma ideologia cristã apegada a suas raízes de exemplo de vida de Jesus e do papel simbólico de diversos personagens bíblicos como Adão, Caim e Abel, etc.

Notadamente, a noção de aproximação das concepções de um cristianismo primitivo, mais próximo a Cristo, está ligada a uma percepção particular do Regime e de sua época. E, portanto, a menção ritualística à “Religião Cristã”, em nosso entendimento, é uma referência direta mas sutil, ao que seria entendido como cristianismo primitivo na visão e ideias esotéricas de Willermoz a partir de seu mentor Pasqually (e não de um cristianismo primitivo arqueológico ou mesmo um catolicismo e protestandismo tradicional).

Como citar este artigo em seu trabalho:
KRAWCZYK, Rodrigo. O que é o Rito Escocês Retificado. Elimosinário, 25.09.2020. Disponível em: [link]. Acesso em: [data de acesso].

Veja também: O que não é RER

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