O que não é RER




O QUE NÃO É RITO ESCOCÊS RETIFICADO


Ao ingressar no estudo e prática do Rito Escocês Retificado, o novato que estiver atento, perceberá tanto um evidente conjunto de preceitos cristãos quanto um sutil e desconhecido simbolismo. 

Já o cavalheiro advindo de outro rito, certamente, perceberá substancial diferença nos trabalhos que, usam em sua ritualística uma linguagem menos descritiva e mais densamente focada na transmissão de conceitos de profundo esoterismo. 

No entanto, é provável que em ambos os casos ocorra grande confusão e percepção equivocada, até mesmo em relação a perspectivas simples.

Em grande parte, isso ocorre por uma usual deturpação de conceitos pela  desconsideração das bases pelas quais os maçons Retificados estão assentados. 

Para conhecer a essência de qualquer ramificação iniciática é imprescindível se debruçar sobre os "princípios", "fundamentos", "pilares", "conceitos", "alegorias" e "símbolos" que, não necessariamente  são comuns.

E também saber excluir o que não pertence ao um sistema em estudo. Certamente, isso passa pela correta identificação de elementos sejam eles doutrinários ou não.

Os doutrinários são acompanhados de extenso conjunto de ideias que se relacionam para um fim. Didaticamente 

Em um primeiro nível de entendimento carente de conceitos básicos, encontramos ideias distorcidas como: o Rito Escocês Retificado é uma correção do Rito Escocês Antigo e Aceito, ou ainda que, determinada prática e paramento tem significado místico ou até mesmo supersticioso – sendo possível encontrar afirmativas semelhantes relacionadas ao uso do Chapéu Tricórnio, espada ou ainda, um o emprego significado ocultista na oração e, até mesmo ela ser de alguma forma vinculada em uma experiência mística ou espírita ao final da sessão.

Uma das razões destas suposições pode estar relacionada pela escassez de uma literatura mais diversificada em língua portuguesa. Ou ainda, por uma infeliz tradição de pouco estudo, falta leitura e desinteresse por pesquisas.

Apesar do Rito Escocês Retificado ser profundamente esotérico e manifestamente Cristão, destacamos que sua doutrina, sendo particular, não deve ser confundida com ideias, sistemas ou religiões que, embora semelhantes em algum aspecto, possuem uma ortodoxia, doutrinas e dogmas que não se comunicam.

Sumariamente, ao estudar o Rito Escocês Retificado, devemos evitar: 

- Buscar similaridades com o Rito Escocês Antigo e Aceito. É equivocado pois, o ponto comum são apenas os símbolos e alegorias relacionados ao Templo de Salomão bem como os princípios cavalheirescos Templários que, no nosso entendimento, são mais explorados e profundos.

- Basear-se em ideias ocultistas, a exemplo de autores como Aleister Crowley, Helena Blavatsky, Charles Leadbeater, Dion Fortune, Eliphas Levi, Papus. É equivocado pois, o ocultismo surge no século XIX,  propondo interpretações alternativas ao esoterismo tradicional, usualmente introduzindo conceitos novos e misturando doutrinas, sistemas e filosofias.

- Interpretar à luz dos Cabala, Budismo, naturalismo, existencialismo, espiritismo, transmigração ou, qualquer simbolismo e filosofia não cristã. É equivocado pois, o RER possui sua própria doutrina que leva em consideração a leitura de símbolos personagens religiosos bíblicos tradicionais em uma visão cristã mas, com uma ideologia particular.

- Utilização da palavra Iniciação ao invés de Recepção bem como, a explicação do triângulo com referências da Cabala e filosofia oriental. É equivocado pois, o RER tem sua própria interpretação de iniciação, uso e associações simbólicas.

- Escrever tripontos, abreviaturas e jargões de outros ritos. É equivocado pois, o RER adota grande simplicidade em seus símbolos, sinais, usa tradicionalmente pseudônimos para identificar seus membros e emprega apenas letras maiúsculas iniciais sem cortes ou tripontos conforme indicam todos os seus textos fundacionais.

- Conceber o Grande Arquiteto do Universo como uma entidade impessoal ou que transmita a ideia de ser material difuso, impreciso como a própria natureza. Ocorre que o ritual é claro em definir que o Grande Arquiteto do Universo é o Deus da tradição judaico-cristã, isto é, um ser abstrato e pessoal.

Este fino liame, torna-se irremediavelmente emaranhado, confuso e até mesmo contraditório basicamente pela falta de informações de como lidar com o sistema esotérico em estudo. A ausência de subsídios pode levar alguém menos versado no esoterismo a "pegar emprestado" conceitos e termos que são definitivamente alienígenas. Portanto, em um primeiro momento de estudos do Rito Escocês Retificado, há de se ter em mente que quaisquer fontes que originem-se fora do contexto Judaico-cristão, bíblico ou evangélico.


Cristianismos

Por mais estranho que isto possa parecer, para o avanço no estudo do Rito Escocês Retificado o buscador deverá encontrar uma perspicácia que dentro do próprio cristianismo. Existem duas razões para isso. A primeira, é a de que muitas ramificações doutrinárias cristãs, embora demasiadamente permissivas em sua retórica, em verdade, possuem ou uma doutrina própria ou uma doutrina que, embora semelhante, passam ideias diferentes e, até mesmo antagônicas com o panorama ideológico do RER.

Doutrinas

Assim, tanto o rosacrusismo quando o martinismo ou martinezismo embora compartilhem muitas ideias comuns, não podem ser confundidos por se tratarem de sistemas esotéricos cristãos com uma doutrina particular. E, por isso nem todas as concepções, métodos e finalidades são as mesmas.

No caso de religiões ou doutrinas e filosofias cristãs mais recentes, isto é, surgidas após a fundação do RER, posemos ter bem mais problemas pois, geralmente suas ideias são mais conhecidas do público em geral.

Dito isso, vamos verificar algumas das tentativas de explicação de ideologias cristãs contemporâneas


Crístico

É o caso do termo "Crístico" e suas variações pensadas em um exercício de ressignificação e comunhão com a visão oriental. Embora não presente textualmente no ritual, devido a inexistência do uso da palavra na época da criação do Regime, aparentemente “pode parecer” qualificar de forma atualizada a ritualística e a ação dos retificados.

Aqui fazemos um alerta: o termo “Crístico” em si, ao nosso ver, parece constituir uma qualidade universalista do Cristianismo em um sentido de transcendência do Cristo como ser ecumênico. Daí, o cuidado no seu emprego e, portanto, o desaconselhamento do uso. Com o mesmo sentido, é comum ver as expressões variantes “Ser Crístico” ou “Homem Cristico” presentes em diversos textos contemporâneos.

Relacionadas com o “Cristo Cósmico” ou o “Cristo da iluminação”, o Cristo é parte de um processo maior. Esta nova extensão decorre da interpretação de que o Cristo é um ser que permeia ou abraça todas as religiões, doutrinas, filosofias, e pode ser associada para além do humano, assemelhando-se a concepções comuns a outras religiões e doutrinas orientais como o caso do Budismo e modernamente o Espiritismo que, em comum, estão ligadas a aspectos do filosóficos do desenvolvimento, evolucionismo ou crescimento espiritual.

Lamentavelmente, parece existir uma confusão. Talvez, derivada de conceitos similares como o do exercício do amor ao próximo, caridade aos pobres e uma unidade superior criadora dificulte o entendimento daquele menos versado nos dogmas cristãos mais conhecidos ou mesmo nas histórias da Bíblia. 

De fato, devemos notar exemplificativamente que tanto os já  citados Budismo e Espiritismo, afastam-se do antropocentrismo (homem como o centro do universo), mitigam o dogma da trindade e o milagre da morte e ressurreição de Cristo como sendo o sacrifício pelos pecados do homem bem como, a sua  promessa da salvação.

Nessa linha tênue, destacamos abaixo um ótimo trecho de um texto que, como muitos outros, são dedicados à uma visão religiosa cristã exuberante relativisadora:

“O homem crístico está liberto de qualquer espírito mercenário; trabalha inteiramente de graça, nem espera resultado algum externo de seus trabalhos. Trabalha por amor à sua grande missão, pois sabe que é embaixador plenipotenciário de Deus aqui na terra e em outros mundos. E é por isso, que ele trabalha com o máximo de perfeição e alegria em tudo, tanto nas coisas grandes como nas coisas pequenas. Nunca trabalha para ter público que o aplauda. Por isso, não o exaltam louvores, nem o deprimem censuras; é indiferente a vivas e a vaias, a aplausos e a apupos, a benquerenças e malquerenças, porque se libertou definitivamente de todas as escravidões do homem profano, do “homem velho”, e se revestiu da leve e luminosa vestimenta do “homem novo” liberto pela Verdade.

Esse homem vive permanentemente na atmosfera serena e sorridente da “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”, cujo diploma crístico vem resumido nas seguintes palavras: “Quando tiverdes feito tudo o que devíeis fazer, dizei: “Somos servos inúteis, cumprimos apenas a nossa obrigação, nenhuma recompensa merecemos por isto”...” (O Sermão Da Montanha, Humberto Rohden, p.23). (Grifei).

Apesar de poético e acalentador a citação acima, confirma a existência de pilares estranhos ao cristianismo tradicional. A visão cristã vê o homem como habitante deste mundo. Já a ideia de um homem missioneiro e transcendente diverge da doutrina conservadora cristã. Nela somos pecadores, imperfeitos. Devemos buscar a retificação pelos princípios cristãos para que possamos nos reconciliar a Deus retomando a relação existente antes do pecado original. O trecho, de fato, possui uma aplicação transcendente, que ultrapassa os dogmas da morte e ressurreição para a salvação em uma nova roupagem, desapegada da experiência espiritual cristã tradicional. A salvação não está ligada a uma iluminação, execução de trabalhos, reencarnações, evolução, vivências em outros mundos ou planos e sim, no seguimento do ensinado pelo filho de Deus, Cristo.


O Deus de Espinosa

Como um último exemplo, temos um famoso texto atribuído indevidamente  ao filósofo Spinoza que curiosamente circula sob uma suposta validação do físico Albert Einstein quando, em uma de suas entrevistas, ao ser perguntado sobre sua crença em Deus, teria o cientista, afirmando que acreditava no “Deus de Spinosa”. 

O trecho a seguir usualmente é apresentado para divulgar o pensamento de espinosa e do cientista sobre a confirmação e crença na existência de Deus:

“Para de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.” (...)

A declaração, que é bem mais extensa, realmente foi feita. Contudo, o texto, intitulado “Deus” segundo Spinoza, é altamente recheado de conteúdo  motivacional, universalista, espírita mas, por mais belo que seja,  não é de Espinosa e, muito menos reflete o seu real entendimento sobre Deus.

O filósofo Baruch de Spinosa (1632-1677), também conhecido como Espinoza ou Spinoza, pela própria data de vida jamais poderia ter criado um texto naquela linguagem. O seu texto é profundo, denso e revela um Deus natural e impessoal, portanto, distante e incompatível com o Deus descrito na bíblia. Em realidade esta peça quase poética que estamos discutindo foi redigida por Francisco Javier Ángel Real, pseudônimo de Anand Dilvar, um palestrante espírita mexicano no livro "Conversaciones Con Mi Guía: …Mas Alla de El escalvo", 2010, Camino Rojo, pág. 14.

Definitivamente, estas ideias merecem ser descartadas. Primeiro, por que os elementos são alienígenas, não constituindo a sua dogmática e, segundo, por não estarem em evidência ou se quer existirem tais conceitos na época da formulação da maçonaria retificada.

Não é uma questão de antagonismo, em seu sentido de enfrentamento ou, inferioridade, desprezo, mas sim, de entendimento dogmático religioso e doutrinário esotérico diverso e, portanto, inconciliável. O contexto histórico do cristianismo da época deve ser rigorosamente observado. 

Ou seja, mesmo existindo pontos de semelhança, a incorporação de conceitos externos (orientais e espíritas), ocasionam uma profunda distorção da ideia original dos retificados, que é a simples aplicação do cristianismo de sua época, adicionado claro, de peculiaridades estritas.

Por isto, destacamos criticamente qualquer iniciativa neste sistema maçônico com a intenção de tornar o filho de Deus como uma entidade universal, transcendente, ou por outras palavras, que leve o Cristo para fora do cristianismo, em uma nova roupagem, diluindo seu simbolismo original.

Nesta senda, faz-se importante mencionar fundamentalmente que Cristo, em seu sentido textual funciona como um adjetivo específico e singular, isto é, um título religioso, originalmente referente ao filho de Deus crucificado, ressuscitado e exaltado aos céus, representante da salvação da humanidade cujos ensinamentos se destacam, sobretudo, pelo amor incondicional ao próximo, o arrependimento, o perdão, a prática da caridade aos necessitados bem como, a crença na promessa do seu retorno à Terra.

Definitivamente, afaste-se de concepções ritualísticas e doutrinárias de outros ritos bem como, linhas iniciáticas ocultistas, filosofias que enxergam Cristo como um princípio transcendente e ideias espiritualmente evolucionistas pela vivência de encarnações. A universalidade realmente existe na visão da doutrina  do RER mas, não está relacionada à religião ou à figura de Deus, Cristo ou a uma missão a ser cumprida em vários mundos (planetas, planos espirituais) e sim, provém da maior mensagem de Cristo, o amor incondicional: a realização da beneficência, da caridade e do amor ao próximo que ocupa um capítulo profundo na doutrina dos maçons retificados.


Religiões

Por segundo e último, é a que o RER por possuir uma doutrina particular baseadas na visão de Willermoz, existem muitas incompatibilidades se confrontadas com a própria religião Católica ou Protestantes de sua época. É essencial compreender que o RER, mesmo comungando de garante parte do pensamento religioso judaico-cristão, não o representa nem o reproduz qualquer cânon religioso em sua dimensão dogmática. E a explicação é simples. O RER possui uma interpretação bíblica que, em um nível mais avançado ou aprofundado, reproduz personagens, objetos e lugares como referências simbólicas, alegóricas e filosóficas muito distantes das que são apresentadas em uma igreja cristã, seja ela qual for. 

Fundamentalmente, este são os motivos pelos quais as leituras feitas a partir de um ponto ocultistas ou religioso devem ser sumariamente evitadas pois, isto não é RER. 

Como citar este artigo em seu trabalho:
KRAWCZYK, Rodrigo. O que não é o Rito Escocês Retificado. Elimosinário, 23.03.2020. Disponível em: [link]. Acesso em: [data de acesso].

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